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21 de ago. de 2012

Iniciática

Esgarça
a gaze branca que me cobre.

Na meia-taça
derrama qualquer bebida,
mesmo a menos nobre.

Tinge de chamas, aguardentes,
se embriaga em auréolas rosadas
- de anjo elas não têm nada -

Asas caídas, no meu céu ungido:
Segue esse líquido até perto do umbigo.

Percorre um Zênite, a anca
junção do Elísio e Inferno,
e dorso-ventral
e inversamente
desemboca sua boca na nascente.

Absorve o seu Karma
meu gozo e presente:

Absolvo sua alma,
conservo seu corpo,
éter e semente...


24 de abr. de 2012

Masoquismo

Tem uma faca na boca
e com ela me sangra
- mas depois de cortar,
me estanca -

Essa faca tem força,
busca sempre o pescoço
me esvai e cega,
expõe nervo e osso.

depois desce assim pelo corpo

misericordiosa e precisa.

Sem perguntar
trata-me como fruta madura

e me cauteriza.

3 de abr. de 2012

serengueti





Apago os rastros, pra te dar mais trabalho.
Eu corro agridoce e  indócil 
(é que não gosto das coisas muito fáceis).

Eu admiro as feras que comem as presas 
que ainda respiram 
e se contorcem.

20 de mar. de 2012

Matemáticavezes


Essa mulher nem sabe o que é frigidez:
com ela o orgasmo
é múltiplo de três.

7 de fev. de 2012

Babo seira

Ao pé-de-ti
plantei um pé-de-mim.

Adubei com algo
que o cavalo deixou no quintal,


melhor que xaxim

31 de jan. de 2012

Tum-tum- Tum Tum Tam Tum Tum


Meu coração,
cheio de bossa e ritmo,
tu eletro - feres.

agora descompasso
em extra - sístoles...


10 de jan. de 2012

Tropel


O sono não vem
- e cadê minha poesia? -

Essa algaravia de vida
zunindo e me deixando tonta.

Tanto acontecendo fora de mim
que é demais
pro aqui dentro dar conta.

3 de jan. de 2012

Zig-Zag


Para quem acredita,
a verdade
seja dita.

Para quem não aguenta,
a mentira
seja benta.

6 de dez. de 2011

Loba


A floresta é a minha capa,
é lá onde eu corro no escuro

e como
quem passa

o Lenhador me devassa,
se entrega,
se expõe aos perigos
pra ver se aos poucos

me acha.

29 de nov. de 2011

Separação de Corpos


Eu, camiseta, calcinha
e meia amarela,
Le(n)do Ivo
- destesto novelas -

Ele, cueca samba canção,

apenas um pênis
que não mais me apetece
e assiste ESPN.

8 de nov. de 2011

Dois pra lá, dois pra cá


Conjugar
o verbo dançar
é fácil demais:

eu brinco
tu colares
eles iguais.

1 de nov. de 2011

Autoral

É de outros,
se eu ponho entre aspas.

Quando ponho entre as pernas
é só meu
e ninguém tasca.

25 de out. de 2011

sem venenos



Cultive o que importa.
Regue por vontade própria.

O revolver de vez em quando a terra,
é o que faz sementes virarem brotos
tornarem em plantas

de amores que não morrem mais.

18 de out. de 2011

Enigma


Sabe aquela mulher no retrato de família,
com olhar de quem não está nem vendo
e pouco se importa?

Sou eu na fase natureza morta.

9 de ago. de 2011

A mai(s)


O sêmem, as outras,
a falta de tato, os destratos:
há coisas que a gente só engole no amor.

Mas depois que tudo isso passar,
nem pergunte porque a gente cospe,
me faça o favor!

24 de abr. de 2011

Não dizes, mas sei,



eu sei, meu bem,
que gostas,


de escrever poemas de amor
em minhas costas,


pra que eu não perceba
mais do que mostras


e acabe por dobrar
as apostas.

30 de jan. de 2011

Itinerantes


Meus olhos estão de malas prontas.
Embarcam hoje,
às três e meia da tarde.

É incerto o itinerário
e nem mesmo sei a duração da viagem.

Mas o destino é certo:
outro desejo em alto-relevo,
outra paisagem.

Meu olhos nômades,
procuram fertilidade.
Semeiam, chovem, colhem.

Mas os teus são inóspitos,
por isso estive só de passagem.



(publicado em meu livro LEOA OU GAZELA, TODO DIA É DIA DELA, Editora Utopia, 2009)