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17 de abr. de 2012

há tempos
que não te vejo.
como é grande essa cidade!

saudade...

não sei mais onde moras
o que fazes
se me lembras...

verdade!

penso em ti agora.
amanhã
já te esqueci.

vaidade.

9 de abr. de 2012

la belle de jour

na tarde sombria
desceu a rua
de roupa amarela
desceu a rua
com uma imensa
destreza
e uma enorme
begônia
na lapela (artigo 12
dos “estatutos do homem”)

imaginou ser aquela que viu na janela
a bela da tarde que na tarde lhe sorria

mas sorria apenas
– sem alarde –
como diria Mecenas
(: a realidade
não combina com a poesia)

19 de mar. de 2012

doutrina

1

 tudo tende ao equilíbrio e à acomodação
independente do tempo.
(esse é um lema de fácil constatação.
difícil é conter a ansiedade e manter a paciência
: coisas que estão além da razão
e da ciência).

2

talvez nada do que não foi dito tenha sido falto
porque desnecessário dizer alguma coisa
num cenário repleto de imagens e mensagens
que se traduzem à moda da idade
à razão da própria e discutível verdade.

12 de mar. de 2012

curupira


o curupira

 tem os pés de viés:
anda para frente
olhando para trás
 
 
 vigia a mata
preserva a caça
caminha sobre metáforas

27 de fev. de 2012

drama gramatical

quem é você afinal?

pronome de tratamento
íntimo pensamento
de semântica ainda presa
na terra portuguesa
a vossa mercê (original)

você é pura-mente
temporal e familiar
mas às vezes pessoal

(tu é segunda pessoa
coisa bem mais singular)

não você não é um morfema
uma figura sem nexo/informal

(nem é um simples fonema)

você é o meu poema
objeto do desejo
partícula final

20 de fev. de 2012


além das reminiscências da infância o segredo da eternidade dentro da bolha de sabão. o tempo não passa dentro da bolha de sabão. a idade para no vazio interno da bolha de sabão. segundos eternos guardados antes da sua irremediável explosão.

13 de fev. de 2012









dirijo balões
de vento

e digiro o tempo
esquecido
:
venho do pai
da aviação

que engoliu
o mundo

e se perdeu
no espaço.

30 de jan. de 2012

segunda-feira











a razão do trabalho
é o repouso: grita
enfaticamente
o fantasma de Aristóteles
aos seus ouvidos filosóficos

mas a realidade
se sobrepõe à teoria
: o relógio interrompe
a máxima
do seu sonho moribundo

(salta de susto
da cama
recobrando a vida batida)

23 de jan. de 2012

amores platônicos & o divã de freud

1.

então conheci todas as sensações que só ouvira falar (foi logo depois de vê-la em quase nudez numa tarde suada de novembro). ansiedade. ofegância. desejos. amor sem esperança desafiavam minha delicada fisiologia. dormia e acordava sonhando com seu toque e no entanto ela não me conhecia. ela jamais me conheceu.

26 de dez. de 2011

drummond & lavoisier

esgotei a minha tinta
e o estoque de papel
pra te escrever um poema

(: presente de papai noel)

mas sem caneta e sem folha
procurei a rosa vermelha
que guardei dentro de um livro

e te dei este poema inefável
(exercício irreversível
que a natureza reciclou)

19 de dez. de 2011

Lavoisier recitado

dos papéis de antes

e palavras de outrora

ao papel e palavras

de agora

em concreta forma

se transforma

o poema

exercício irreversível

que a natureza

reciclou

12 de dez. de 2011

5 de dez. de 2011

reflexo











a lua vai
rondando a terra rodando
a lua vai a lua
palco de guerra

 (: são jorge de espada na mão
sobre o cavalo escalpa o dragão)

 a lua vai apaixonante vai
a lua vai enluarando vai
a lua vai e finalmente
cai

 (brilha na água o luar
e o raul coitado
narciso apaixonado
acha o lago um espelho)


14 de nov. de 2011









observava a rua
com olhos infinitos
e cabalísticas intenções

(: enraizou-se anti-profético
à sombra da sete-copas
admirando o redemoinho de folhas secas)

s.olivio

7 de nov. de 2011

nu e nulo
a visão do abismo
sem asas
:
um risco
um toque
um dígito –
so(m)bras do poema


s.olivio

31 de out. de 2011

narciso













não sou o que
pareço
       sou
             o que trans-
pareço
:
através do ver-
so me espelho

s.olivio

24 de out. de 2011

em tempo de guerra com as palavras
dormir é uma falta e um constrangimento

essas horas que passamos longe da vida

se pudéssemos escrever os sonhos não lembrados
se pudéssemos converter as horas não dormidas

essa vida que passamos longe das palavras

17 de out. de 2011

sol de armistício



o meu caminho se perdeu
no poente do seu horizonte
sem nenhuma promessa de manhã.

em suas mãos o meu amanhã
: amanheço em silêncio
sombra submissa do seu sorriso.


Sidnei Olívio

10 de out. de 2011

diagrama do futuro

esperar por alguém
que (você sabe)
não vai voltar.
(o tempo que passamos
pacientemente
esperando...)
 paciente paciente
numa sala
de espera.